“O caçador de pipas”: pecados
e redenção
A obra O Caçador de Pipas relata uma história de amizade,
traição, perdão e crescimento, porém não
sem dor, sofrimento e dificuldades.
A história começa nos anos 70, em Cabul, onde dois meninos que
foram amamentados pela mesma mulher, Amir e Hassam, passam a infância
juntos numa convivência que mescla amor e ciúme, ingenuidade e
abuso.
As diferenças entre os dois personagens são gritantes: Amir é filho
de um homem rico e respeitado pelos afegãos. Demonstra muito ciúme
e insegurança, parecia estar querendo provar para o pai suas qualidades,
e quando o pai elogia o amigo (Hassam) esta inveja o domina... Não raras
vezes teve atitudes covardes. Costumava aproveitar-se da ingenuidade do amigo
para enganá-lo com histórias irreais e inventando significado
de palavras. Já Hassam era filho de um empregado da casa de Amir, nascera
com o lábio leporino, não sabia ler ou escrever, era humilde,
mas fazia tudo pelo amigo ( defendia em brigas, buscava agradá-lo...).
Esta diferença tão grande entre os dois personagens torna o enredo
ainda mais interessante e intrigante fazendo despertar sentimentos bastante
humanos. Faz pensar sobre amizade verdadeira, confiança e relacionamento
com pessoas próximas.
O autor surpreende com uma cena ricamente descrita, que envolve, prende e desestabiliza
o leitor ao narrar o ocorrido em um famoso campeonato de pipas, onde Amir poderia
agradar seu pai vencendo tal campeonato. Hassam, querendo ajudar o amigo a
conquistar o grande troféu, corre atrás da última pipa
cortada, de cor azul. Correndo pelos becos para chegar à frente de todos,
deparou-se com Assef, que já tivera um desentendimento pessoal com os
garotos, agora protegido por sua tribo quer mostrar sua força exigindo
que Hassam lhe entregasse a pipa. Diante da negativa do menino, Assef o violentou.
Amir assistiu a tudo covardemente escondido, com medo, e mesmo sabendo que
sua atitude não era correta, nada fez para ajudar o amigo.
Neste ponto da história, o leitor se depara com sentimentos que oscilam
entre a piedade e a compaixão, e entre a indignação e
a raiva. Começa a se questionar sobre o sentido da amizade e da veracidade
deste laço entre as pessoas. Ética e cidadania conflituam com
sentimentos diversos levando a uma grande reflexão seja pessoal ou em
nível de comunidade social.
Porém, o autor vai mais longe no seu desafio ao leitor. Ele coloca Amir
tomado pela culpa, sem poder encarar o amigo e para livrar-se de tal situação,
o menino inventa um roubo, acusando Hassam, que confirma o delito apenas para
proteger o amigo da fúria paterna. Mais uma vez a grandeza do menino
pobre, humilde e sem instrução se sobressai, enquanto Amir mergulha
cada vez mais em sua pequenez.
Na trama, Amir e o pai fogem de seu país devido a problemas decorrentes
da invasão soviética e os obstáculos que enfrentam acabam
por aproximar pai e filho, que vão viver na América. Assim, quando
a história parece estar se esgotando em seu próprio enredo, um
novo fato a faz ressurgir.
Amir volta ao Paquistão onde descobre que Hassam era seu irmão,
filhos do mesmo pai, mas que não sabiam desta verdade. Descobre ainda
que Hassam e a esposa morreram em defesa da casa de Amir, deixando um filho,
Sorab, que fora encaminhado a um orfanato.
Também na vida real, apenas um fato é capaz de reavivar antigas
feridas que já não doíam mais. No entanto, agora, o autor
coloca a culpa de Amir a favor de seu desejo de redimir-se de todo mal que
havia feito. Ele vai ao Afeganistão em busca de Sorab, que fora comprado
para servir de objeto sexual, seu dono era Assef. Amir enfrenta uma grande
batalha na tentativa de adotar Sorab. Acaba descobrindo sua fé em Deus
e conseguindo a adoção.
Em uma cena nostálgica, o autor coloca Amir ensinando Sorab a empinar
pipas tentando conquistar sua confiança e retomando os sentimentos infantis
de alegria e paz.
Esta obra requer atenção do leitor para poder compreender sua
totalidade, no entanto trata-se de uma história fascinante, envolvente
e que é capaz de desacomodar alguns conceitos e ideias. O autor consegue
dosar as descrições com a fluência do enredo tornando a
leitura bastante rica e aprazível concomitantemente. O comportamento
das personagens parece estar sempre apontando para um lado: os valores humanos,
e o autor conduz de tal forma a história que parece estar ensinando
um código de conduta.
Resenha crítica escrita por Elenice Terezinha Strefling, acadêmica
do curso de Gestão em Recursos Humanos da ULBRA Carazinho.
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